A Sedução dos Maldizentes

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Bom, pessoal, essa é a primeira vez que eu escrevo algum artigo desse tipo para algum blog, site ou algo do gênero, então esperro que me desculpem os excessos.

A idéia para esse enorme texto me veio recentemente, após ouvir uma das infindáveis piadas sobre HQ’s que conhecemos bem, seguida da citação do A Sedução dos Inocentes. Espero que a leitura não seja muito chata.

Quem nunca ouviu piadas sobre a sexualidade de Batman e Robin?

Ou sobre a Mulher-Maravilha e tendências sadomasoquistas?

Quem não ouviu falar que as revistas em quadrinhos deturpam e corrompem as crianças? E que ler quadrinhos é coisa apenas de crianças e deficientes mentais?

Bem, certamente ao menos uma (ou mais) dessas expressões já foram ouvidas pelos leitores. Isso é algo que há décadas acompanha os leitores de quadrinhos, especialmente nas Américas. Mas como se propagou tais idéias? E por que motivo se manteve por tanto tempo?

Um dos principais perpetradores de tal pensamento foi um senhor chamado Fredric Wertheimer. Não conhece? Talvez já tenha lido sobre o nome que adotou ao se mudar para os EUA, Frederic Wertham, o polêmico autor do ignóbil livro “Sedução dos Inocentes” (Seduction of the Innocent), de 1954.

Autor de vários livros sobre psicologia e psicopatologias, como The Brain as an Organ, Dark Legend e Show of Violence, entre outros, desde cedo se mostrou ligados à mídia impressa e aos crimes cometidos por jovens, normalmente ligando a hipótese de que a “baixa literatura” influência os jovens a cometerem crimes e atitudes temerárias.

Mas apenas com A Sedução dos Inocentes, o ataque passaria a ser direto e forte a indústria dos comics norte-americana. Embasado pelo período McCarthysta que dominava os Estados Unidos, apoiado pela própria comissão do Senado para investigação de atividades “antipatrióticas” e com apoio dos setores mais conservadores da sociedade, o Dr. Wertham conseguiu ficar sob a luz dos holofotes e ao mesmo tempo emperrar uma das indústrias que mais cresciam nos EUA, desde a publicação do Yellow Kid de Richard Outcault.

Com artigos desde 1948, Wertham foi sistemático em seus ataques, embora até a ascensão do Senador McCarthy tenha sido ignorado pela maioria dos grandes meios de comunicação, exceção sendo feita apenas à poderosa revista Time, que “abraçou a causa” e passou a publicar uma série de artigos contra os comics, e conclamar ações contra os mesmos.

Mesmo a criação da Association of Comics Magazine Publishers (Associação de Editoras de Revistas em Quadrinhos) capitaneada pelas poderosas EC Comics e a Lev Gleason Publications, e de suas “diretrizes de decência” para os quadrinhos não foi suficiente para remediar a situação.

Para piorar ainda mais o cenário, tal como ocorrera com os profissionais em Hollywood e na imprensa, também na indústria dos comics ocorreram perseguições, demissões e até mesmo prisões de profissionais da área, acusados de serem comunistas, colaboradores ou mesmo simpatizantes do comunismo, ou ainda, apenas por terem sido citados ou vistos em companhia de alguém que era suspeito de ser comunista.

Após o lançamento de seu principal livro, A Sedução dos Inocentes, o Dr. Wertham excursionou pelo país com seu simpósio “A Psicopatologia das Revistas em Quadrinhos”. Sua principal “prova” de sustentação de sua tese eram as entrevistas com os próprios jovens delinqüentes, que em sua maioria admitiam ter lido quadrinhos em algum momento de sua vida, ignorando por completo todos outros fatores psico-sociais que levam a esse tipo de crime.

Além disso, a partir das publicações da Time e do próprio livro de Wertham, tornou-se comum jovens criminosos admitirem terem sido “influenciados” pelos comics, uma vez que isso garantia a simpatia das autoridades e da lei frente a seus crimes.

Para acompanhar apenas alguns dos exemplos que o Dr. Wertham cita em sua obra, vamos nos concentrar principalmente naquelas figuras mais conhecidas, mais icônicas dos quadrinhos mundiais. Por exemplo, sobre Batman e Robin, ele cita em seu livro:

“Constantemente eles se salvam um ao outro de ataques violentos (…) Ás vezes,

Batman acaba numa cama, ferido, e mostra-se o jovem Robin a seu lado. Em casa, vivem uma vida idílica…”.

Depois disso, ele ainda questiona a sexualidade da dupla e o seu relacionamento extra-heróis. Mas não apenas a Dupla Dinâmica sofre frente à miopia e preconceito do Dr. Wertham, mostrando toda sua veia preconceituosa e sexista, também parte para a “análise” de figuras como de Sheena, a Rainha das Selvas, e da Mulher-Maravilha.

A primeira é dito que incentivava o sexo (?), o sadismo (?) e a masturbação (???)! A outra, é citada como lésbica e frigida, e ainda, sadomasoquista, pois é vista usando uma corda e constantemente presa ou aprisionando homens.

Nem mesmo o primeiro dos heróis com super-poderes, o Superman, escapou da sanha do Dr. Wertham. Foi taxado como um estrangeiro que se fazia passar por norte-americano (afinal, era um alienígena), e que, além disso, era o símbolo do Super-Homem de Nietzsche, com isso representando o ideal nazista de Eugênia. Quando comparado aos discursos do ministro alemão Goebbels, é uma situação no mínimo paradoxal.

Encontrando eco em novas camadas sociais e na subcomissão de investigação do Congresso, Wertham teve uma nova vitória ainda, no próprio ano de 1954, ao ser chamado para depor juntamente com representantes da ACMP e das demais grandes editoras do país. No entanto, apenas a EC Comics mandou um de seus editores, William Gaines, enquanto as outras enviaram apenas homens de negócios e burocratas, sem noção do mercado editorial, o que complicou ainda mais a situação das editoras.

Desse modo, em 26 de Outubro de 1954 foi criado o famigerado Comics Code, adotado pela nova Comics Magazine Association of América, a CMAA, representante das editoras de quadrinhos dos EUA. Devido à atenção do governo, muitas distribuidoras e revendedoras recusaram-se a vender revistas que não trouxessem estampadas em suas capas o selo do Código.

Para se ter uma idéia do que resultou toda essa atitude de Wertham, basta lembrar que, até outubro de 1954, haviam cerca de 600 títulos de HQ e circulação, gerando um negócio de mais de 90 milhões de dólares apenas em vendas diretas. Como resultado da histeria alimentada pelo Dr. Wertham, entre outros, algumas das principais editoras fecharam suas portas e o mercado sofreu uma tremenda recessão, sentida até meados da década seguinte.

Seduzidos pelas palavras do Dr. Frederic Wertham, membros da sociedade norte-americana condenaram os comics ao ostracismo por décadas, o que se refletiu em vários outros países ao longo do tempo. Se hoje temos uma indústria forte e reconhecida, deve-se principalmente a tenacidade de homens que não desistiram de sonhar, de escrever e desenhar, e de leitores que ainda ousam sonhar em meio a crises e desastres globais.

E o Dr. Wertham? Continuar falando dele seria apenas perpetuar a fama de alguém não merece nem mesmo ser lembrado, o verdadeiro Sedutor de Inocentes, ou melhor, o Sedutor de Maldizentes preconceituosos que puseram em cheque a nona arte para toda uma geração.

Quantos tiveram momentos prazerosos e histórias maravilhosas que jamais serão escritas, por culpa de um grupo de seres maldizentes, preconceituosos e retrógrados? Wertham foi um canalha aproveitador, que usou o momento da História norte-americana para d se promover e granjear fama, mas que também teve seu nome ligado a esse eterno vexame e hoje ele, mais que outro de seus opositores, tem seu nome ligado a piadas e a visões distorcidas.

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3 Respostas to “A Sedução dos Maldizentes”

  1. renatchka Says:

    Tais pensamentos desse senhor são condizentes com a realidade de uma época em que dizer um “A” fora do que era esperado pelos vigilantes da moral e dos bons costumes era quase sempre motivo de acusação de comunismo, ou então de romper com os padrões morais e éticos da conduta social vigente.
    Uma sociedade hipócrita, cujas desigualdades e contradições resultavam em violência, e era necessário colocar-se a culpa em alguém. Por que não nos comics? Os desenhos de Walt Disney não eram violentos também? Em sua grande maioria, sim. Mas todos sabemos que o Walt Disney apoiava o governo McCarthysta, então…
    Não posso evitar sorrir ao imaginar a expressão do Sr. Fredric Wertheimer, caso ele pudesse ler uma HQ do Garth Ennis, nos dias de hoje. 😀
    Adorei o texto, parabéns!

  2. Leandro Rocha Says:

    Ao ler este texto eu automaticamente lembrei de várias vezes em que ouvi o preconceito com relação aos quadrinhos, desenhos, grafite e outras formas de expressão não-convencionais.
    Infelizmente ainda existem pessoas que não conseguem enxergar que a cultura não é estática e que através de várias formas ela pode ser produzida e reproduzida.
    Lembro de já ter utilizado várias vezes produções de quadrinhos e TV (de qualidade) para embasar argumentações e exemplificar temas a serem discutidos.
    Alguém discorda que X-men foi produzida com a intenção de falar sobre preconceito no auge da luta pelos direitos civis nos EUA? E outros exemplos surgem com a mesma facilidade…
    Gostaria de fechar esse comentário deixando os meus parabéns e convidando o Sr. Alex Sander a continuar mandando estes textos tão preciosos.

    Um abraço!

  3. Pânico moral « O Criador de Jogos Says:

    […] e parecido com o problema atual é o caso dos quadrinhos, quando em 1955 foi publicado o livro “Sedução dos Inocentes”, que críticava os quadrinhos, dizendo que estes causavam delinquencia juvenil, baseado na […]

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